domingo, agosto 08, 2004


"Mister DeMille, I´m ready for my close up"

Querido José Castello-Branco,

Estive uns dias no Portugal afastado - não no profundo, no afastado mesmo - onde o peso da interioridade esmaga por ausência de estímulo, onde a melancia se chama sandia, onde a vontade de comunicar se dilui em respostas breves e o desejo de ócio se dissipa com o tédio.
Entre delírios termais, escassas consultas bloguistas e algumas (vãs) buscas em livrarias com duas prateleiras, lembrei-me do Thoreau e apaziguei-me com aquela tão linda quanto gasta frase:

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practise resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life...

Assim, resignada ao essencial que me restava, passei os olhos pelas revistas da papelaria... e não é que o vejo? Ali, na TV Guia com honras de capa e promessas de partir para a "Quinta".

Não resisti, rico, tive mesmo que ver - e ler - a entrevista exclusiva anunciada na capa.

E a-do-rei, 'tá a ver?

Acho que essa gentinha que o critica não percebe nada de coisa nenhuma e, de todo, não o compreende.

Eu, por mim, percebo-o lindamente e queria dizer-lhe que não ligue a esses esfomeados "de conhecimentos" que teimam em não ver a profundidade que é tão evidente em cada frase sua.
Por exemplo, quando o querido diz que "sem estas pequenas coisas (tipo guarda roupa todo griffe) eu não seria eu", tem montes de razão.

Eu própria, sem as minhas coisinhas, também não seria eu... Desconfio mesmo que não seria nada, o que - para pessoas que, como nós, querem à força ser alguma coisa - não dá jeito nenhum e chega a ser embaraçoso.

Três notas apenas, rico, sabe que eu aquilo que não digo pela frente digo pelas costas. É assim:

Não volte a pousar para a fotografia com os braços levantados para se ver que também depila as axilas porque revela, ao mesmo tempo, uma flacidez muscular to-tal.

A tonalidade do verniz com que pinta as unhas não combina, de todo, com a sua tez morena.

A fita no cabelo - apesar de estar lindamente com as madeixas e o batôn - dá-lhe um ar do tipo sopeira ( que o querido alega ter tido para matar as galinhas "parvoadas" a "espichar sangue" na sua infância).

Eu dava-lhe o nome de uma casa em Londres onde lhe faziam umas botas de montar à medida da sua gota ( e tão chique que tem porteiro a fazer vénias e isso tudo) mas as suas Channel parecem-me muito mais adequadas para a caça à galinha que se propõe.

Até porque, se montar um cavalo, nesses preparos, ao pé de uma qualquer galinha, não precisa de usar espingarda ("como na caça à raposa" - não foi isto que disse? Espingarda na caça à raposa?)... Ficaria tão, mas tão "fantástico", que a galinha se atirava para o chão e morria de riso e ponto, 'tá a ver?

Admiro-o imenso por aguentar a "conversa fiada" com "grupetas" de gente que "odeia" e "que não passa de um grupo de pequenos burgueses, sem mundo, com manias que são alguém".

Sim, porque para nós que temos "mundo", somos "alguém" e temos "conhecimentos" é pa-vo-ro-so suportar a dor de uma gota nuns sapatos Yves Saint Laurent.

Ah, é verdade! Já reparou que há gentinha capaz de ostentar marcas para tentar confundir tolice medíocre com excentricidade?

Bom, meu querido, tenho que ir, está um calor de morrer e não há pachorra para mais.

Um milhão de beijos para si e para a bettyzinha,